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“Muitas pessoas travam por falta de pertencimento” Diz Eduardo Luz

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Foto: Verônica Rabelo

Não é raro encontrar pessoas com inteligência, sensibilidade e capacidade evidentes, mas que permanecem à margem da própria vida. Pessoas que poderiam ocupar lugares de destaque, liderar processos, se fazer ouvir, mas não o fazem. Não por falta de competência, e sim por uma questão mais profunda: o sentimento de pertencimento.

Do ponto de vista psicológico, o pertencimento não se resume a estar inserido em um grupo. Ele diz respeito à autorização interna para existir, desejar e ocupar um lugar simbólico. Quando essa autorização não se constitui de forma sólida, o sujeito até reconhece suas qualidades, mas não consegue sustentá-las na prática.

Muitos desses impasses se estruturam precocemente. A forma como o sujeito foi olhado, escutado e reconhecido ao longo da vida influencia diretamente sua relação com o mundo. Quando esse reconhecimento falha, instala-se a sensação de não ser suficiente, de estar sempre deslocado, como se o lugar de destaque fosse destinado ao outro, nunca a si mesmo.

Diante disso, o sujeito tende a recuar. Evita se expor, minimiza conquistas, desacredita oportunidades e, muitas vezes, se sabota no momento em que poderia avançar. Não se trata de incapacidade, mas de um conflito interno: ocupar um lugar de visibilidade pode ser vivido como ameaça, culpa ou transgressão.

Na prática clínica, observa-se que um baixo nível de pertencimento produz um paradoxo doloroso. Quanto maior o potencial, maior pode ser o medo de assumir esse lugar. Destacar-se pode significar perder vínculos, ser rejeitado ou abandonar a posição conhecida de quem observa de fora.

O trabalho terapêutico, nesse contexto, não é empurrar o sujeito para o sucesso ou para a performance. É ajudá-lo a construir, pouco a pouco, a possibilidade de se autorizar. Autorizar-se a existir, a desejar, a falhar e também a ocupar um lugar que lhe cabe.

Quando o sentimento de pertencimento começa a se reorganizar, algo muda de forma silenciosa, mas profunda. O sujeito passa a não pedir mais permissão para ser quem é. Deixa de se esconder atrás das próprias capacidades e começa, enfim, a habitar o espaço que sempre esteve disponível, mas que antes parecia proibido.

Pertencer, nesse sentido, não é ser aceito por todos. É conseguir sustentar a própria presença no mundo sem precisar diminuir a si mesmo para caber.

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